Cidades

Carta aberta ao maestro de um Brasil em busca de afinação

Caro Ancelotti,

Escrevo como quem se queixa ao doutor de confiança. Ando com uma dorzinha tinhosa. Teima igual coceira. Disseram que o senhor daria remédio.

Seus feitos, doutor, me tranquilizam: há de passar. Um dia a seleção reencontra o imaginário, recupera a identidade, e a dor evapora.

Pessimistas provocam: vai demorar, hein. Argumentam que o espelho se quebrou. Não ouso retrucá-los.

Minha fé resiste, doutor. Sob sua batuta, o Brasil contabiliza, em menos de seis meses, 12 vitórias, quatro empates e três derrotas. Nada mal. Pena que os números destoam da vista.

Sejamos francos: o Brasil joga nada faz tempo, bem antes da sua chegada. Perdoe se o sangue de torcedor ferve exagero.

O diacho, doutor, é que o “novo ciclo” não dá pinta, por enquanto, de livrar-nos do círculo no qual, não entendo bem por quê, a gente se meteu. Parecemos disco arranhado, presos a uma ladainha opaca.

Analistas se esforçam para detectar faíscas de melhora. Suas façanhas de treinador e a reputação de país do futebol justificariam a relativa benevolência com os recados do campo.

Não me acuse, por favor, de cumplicidade com a precipitação que frita técnicos. Reconstruções, nós sabemos, costumam demorar. Sujeitam-se a testes, ajustes sistemáticos, correções de curso. Imagino a trabalheira.

Já seria razoável, contudo, um sinal de reaproximação com a Canarinho de almanaque: impetuosa, inventiva, apolínea e dionisíaca na dose certa. Uma Canarinho avessa à mesmice.

Dói identificá-la em pés estrangeiros. O incômodo não configura recalque vira-lata. Reconheço nossa histórica majestade, agora em tronos além-mar.

As melhores entre as melhores jogam ao feitio das seleções brasileiras que sedimentaram nosso prestígio global. Aquelas cujas escalações sabemos de cor, algumas especialmente incomparáveis.

Toque de bola, tabela, triangulação, drible, criatividade, ousadia. Às virtudes que conhecemos tão bem, o primeiro escalão europeu agrega intensidade obrigatória à competitividade moderna. Nenhuma roda inventada.

A receita combina atletas habilidosos e inteligentes com esquemas táticos coesos, cooperativos, temperados de movimentação constante, passes ligeiros, fintas agudas. Não vinga, é lógico, sem elenco quafilicado.

Cresci perto disso, doutor, no quintal do Maraca. Sarrafo lá em cima. Sorte.

Essa orquestração danada de boa, outrora exportada, abraça mais a proposição, como se diz hoje, do que a transição. Tem fome de bola. Ao menos fome de bola, doutor, não pode faltar.

Reviver tal estilo, eu presumo, ancora o compromisso de representar o Brasil brasileiro, compromisso reiterado numa entrevista recente. A solidariedade pede licença para uma respeitosa sugestão.

À desejável retomada da afinação verde-amarela, convém resgatar, verdadeiramente, três preciosidades indispensáveis para o sucesso de qualquer partitura: o lateral versátil, o armador e o autêntico dez. Eles estranhamente minguam por aqui.

Não custa lembrar:

Lateral versátil: marca e apoia com desenvoltura e consistência. Ora vira meia. Ora, atacante.

Armador: dita o ritmo com maestria. Desafoga o time, clareia a saída de jogo. Descola atalhos, lançamentos milimétricos, enfiadas decisivas. (Bons volantes tentam, com louvor, suprir a função. Passam longe.)

Dez: ponta de lança clássico. Drible fácil, faro de artilheiro, clarividência. Bagunça ferrolhos. Ora arma, ora arranca na ponta, ora rabisca pelo meio. Cultiva um pacto diabólico com o gol.

Sem bambas assim, nem Harry Potter reaviva o Brasil idealizado. Não significa que tenhamos de apelar aos deuses para tornarem a nos fornecer uma concentração de cracaços. Significa estimular e valorizar, desde os primeiros chutes na chapinha, talentos vocacionados à rima entre beleza e eficácia que separa os escretes medianos dos primazes, os primazes dos fascinantes.

A França, por exemplo, reúne três ou quatro camisas 10. Zidane cumpre o delicioso desafio de harmonizá-los, como fizeram Zagallo em 1970, Telê em 1982 e Felipão em 2002. (Dez genuíno, Zidane jogava o fino, né, doutor?)

Desculpe se me falha o ufanismo e eu peso a expectativa. Não leve a mal. É duro ver o Brasil parar no pôster antigo e em chuteiras alheias.

Por um lado, confesso, controlo a inveja e mato saudade na envolvência de espanhóis, franceses, ingleses, portugueses. Viva a universalidade poética!

Por outro, dói perceber que esse jeito tão maneiro de jogar bola, tão nosso, desgarra e reluz lá fora. A dor martela o orgulho pentacampeão. Está impossível evitá-la, doutor.

O desabafo não se confunde com chororô, muito menos indica descrença. O peito altivo dos apaixonados confia que as coisas se aprumem, o espelho se restabeleça e a dorzinha parta para nunca mais.

Abraço fraterno,

de um cotovelo dolorido.

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Batuque da memória

Por falar em Dez, a estreia de Rivellino no Fluminense, sábado de carnaval, 1975, é uma das histórias que colorem o terceiro episódio da série “Nós somos do Rio de Janeiro”. Dirigida por Sidney Garambone, a produção triangula futebol, samba e territórios do Rio.

Desde o compasso exemplar de Cartola, cuja paixão tricolor se entrelaça à fundação da Mangueira, até novos embalos de torcedores no morro, o doc costura casos e personagens que unem o clube das Laranjeiras à Estação Primeira. Conduzido com amor e com vigor pelo mestre de bateria Rodrigo Explosão, o passeio retumba, acima de pavilhões, a alma carioca.

Rivellino é recebido, naquele 8 de fevereiro, por batuques mangueirenses (jogada oportuna do presidente Francisco Horta). Só os espíritos de porco duvidariam de que o cortejo percussivo inspira o cartão de visitas do craque. Ele marca três gols nos 4 a 1 sobre o Corinthians, uma folia inesquecível para os 40 mil no Maracanã.

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Finalíssina do CBLOL

Já no próximo sábado (10) o baile será dos esportes eletrônicos. Cerca de 10 mil pessoas vão acompanhar, a partir das 13h, na Arena Carioca 1 do Parque Olímpico, a finalíssima do Campeonato Brasileiro de League Of Legends (CBLOL) 2026. Show da rapper Ebony abrirá a festa.

Os dois melhores times disputarão, fora o título, uma vaga direta na fase suíça do Worlds 2026. (Transmissão nos canais oficiais do CBLOL.) Atividades como encontros com jogadores (meet & greets) e ativações de marca reforçam o formato de festival. “Vai muito além da competição”, ressalta o líder de Produto do CBLOL na Riot Games Brasil, Igor Correa.

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Força feminina

O clima de celebração se estende ao domingo (11), na segunda etapa da Girl Power, corrida exclusivamante feminina com percursos de cinco e dez quilômetros. Sob o lema Keep Glowing (Continue Brilhando), a iniciativa integra participantes de diversas idades e níveis de condicionamento. Elas largam às 7h, em Copacabana (Posto 2).

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Alexandre Carauta é jornalista e professor da PUC-Rio, integrante do corpo docente da pós em Direito Desportivo da PUC-Rio. Doutor em Comunicação, mestre em Gestão Empresarial, pós-graduado em Administração Esportiva, formado também em Educação Física. Organizador do livro “Comunicação estratégica no esporte”.

Ricardo Motta

Ricardo Motta é jornalista e responsável editorial do Rio Hoje Notícias. Atua na cobertura de política, cidades, segurança pública, esportes e acontecimentos do estado do Rio de Janeiro. Contato editorial: contato@riohoje.com.br.
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