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Heroísmo, milagre, história de filme? Os de sempre dizem que foi montado

Sessenta e sete minutos: foi exatamente o tempo transcorrido entre o alerta inicial emitido pelo avião da Flydubai e os primeiros posts a circular nas redes sociais contestando a fenomenal história de passageiros comuns com destino a Israel que assumiram o controle do avião depois que o copiloto esfaqueou o comandante e salvaram as vidas das 174 pessoas a bordo.

Os fatos realmente foram espantosos e ainda há muito por saber, mas é difícil contestar a autenticidade do encanador Yaniv Hayum, que conseguiu entrar na cabine e, com ajuda de mais dois passageiros, tirar o comandante caído no chão, depois de bravamente conseguir acionar o botão que abre a porta blindada, e dominar o copiloto. “Dei uma chave de pescoço nele”, resumiu o passageiro de camiseta branca manchada de sangue.

A um perplexo e sorridente primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, ele também contou que o tripulante suicida estava tentando destruir os comandos do avião em queda livre — no total, foram 4 mil metros de pavor. Hayum puxou o manche, conforme se vê em episódios de um programa de televisão sobre acidentes de avião. Dois pilotos ainda não identificados, que estavam a bordo para substituir os tripulantes quando a jornada de trabalho expirasse, assumiram a partir daí e pousaram o avião, com o leme quebrado, num aeroporto do interior da Arábia Saudita.

Uma história espantosa pela coincidência de tantas coisas que deram certo, quando tinham tudo para dar errado, mas que, segundo as hostes de sempre, foi armação, uma operação de “bandeira falsa” para favorecer Israel. Segundo um centro de pesquisas sobre antissemitismo, em doze horas de monitoramento, foram identificados no X quase 3 mil posts atribuindo o episódio a elementos como Israel, Mossad, Netanyahu, sionistas e judeus.

PRAGA DESCONTROLADA

Segundo especialistas, a narrativa se desenvolveu e disseminou tão rapidamente porque já estava pronta: segue padrões conhecidos do antissemitismo. Segundo eles, os ataques contra israelenses e judeus em geral são provocados pelas próprias vítimas com o objetivo de manipular a opinião pública. Quando israelenses recusam o papel de vítima e assumem a própria defesa, como no caso do avião da Flydubai, são agentes do Mossad.

Não dá, evidentemente, para argumentar diante de uma carga tão absurda de mentiras e distorções. Gradualmente, serão preenchidas as lacunas sobre o caso do copiloto que esfaqueou o comandante, o indiano Smit Machchar, que quase teve os dedos decepados e sofreu grave hemorragia.

Saberemos tudo? Provavelmente não. Os países árabes envolvidos, Emirados e Arábia Saudita, não são a favor da transparência e, acima de tudo, não querem sofrer constrangimentos. Israel também pode ter interesse em não revelar detalhes operacionais, apesar de ter uma imprensa livre e capacitada.

Devido à livre circulação de opinião, todos os políticos de oposição já acusaram Netanyahu de tirar proveito do caso, que obviamente provocou enorme comoção nacional. Todos teriam feito provavelmente a mesma coisa, mas é assim que as democracias funcionam.

Netanyahu irá se beneficiar eleitoralmente de um caso tão entusiasmante, embora não tenha nada a ver com seus desdobramentos? Pode acontecer um efeito contrário: já há muitas queixas de que os serviços de segurança falharam ao liberar o copiloto, um cidadão de Omã com histórico de antissemitismo nas redes. A eleição é só no dia 27 e até lá será difícil explorar a comoção pública. A cada dia em Israel, há guinadas de tirar o fôlego. Certo mesmo, só o antissemitismo que se espalha pelas redes como uma praga cada vez mais descontrolada.

Ricardo Motta

Ricardo Motta é jornalista e responsável editorial do Rio Hoje Notícias. Atua na cobertura de política, cidades, segurança pública, esportes e acontecimentos do estado do Rio de Janeiro. Contato editorial: contato@riohoje.com.br.
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