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Campanha presidencial explosiva? Esperem o que acontecerá na França

Professores espancados, chutados, agredidos com barras de ferro. Escolas incendiadas. Uma funcionária atingida por um spray transformado em lança-chamas improvisado, dirigido contra seu rosto – e por um menino de 15 anos. Mesmo pelos padrões franceses, as manifestações estudantis dos últimos dias foram de uma violência assustadora. O movimento grevista foi totalmente dominado por militantes da França Insubmissa, o partido de extrema esquerda cujo candidato, Jean-Luc Mélenchon, poderá concorrer com Marine Le Pen como segundo colocado nas eleições presidenciais de 2027.

O lugar comum seria dizer que haveria uma disputa entre os extremos, mas a Reunião Nacional, o partido rebatizado de Le Pen, passou por um forte processo para eliminar o que tinha de pior em termos de direita, as simpatias neofascistas e o comportamento agressivo. Mesmo controlada, essa tendência pode voltar à tona e explodir nas ruas se o principal adversário dela for Mélenchon, de uma esquerda nada reconstruída e agressiva. Segundo as pesquisas, por alguns dias na semana passada ele foi o segundo candidato com mais preferências, atingindo 17% das preferências.

Os números recuaram na pesquisa mais recente, mas não é impossível que Mélenchon acabe favorecido pelos votos de simpatizantes da esquerda que não o teriam como primeira escolha e acabem vendo nele a única possibilidade de enfrentar Marine Le Pen.

A cínica manipulação dos protestos estudantis, voltados inicialmente para melhores condições nas escolas de ensino médio e até mais substitutos para os professores que faltam, mostra, infelizmente, o sucesso das táticas clássicas da extrema esquerda. É fácil botar fogo, literalmente, na cabeça de manifestantes frustrados e muito jovens, suscetíveis aos discursos radicais como o de Mélenchon, um orador carismático, independentemente do conteúdo.

BARRIGA CHEIA?

As reivindicações dos estudantes são, obviamente, legítimas e indicam uma área, a das escolas de periferia, cheia de problemas. Quem vê jovens reunidos em torno de um professor que mostra os maravilhosos detalhes dos afrescos de Delacroix na Igreja de São Sulpício, uma cena parisiense da semana passada, pode achar que os estudantes franceses estão reclamando de barriga cheia. Não estão. Os problemas são reais, o que em nada justifica a violência extrema das manifestações que levaram ao fechamento de 400 escolas.

A França tem uma tradição de protestos violentos e grupos organizados, à maneira dos black blocs, para espalhar o quebra-quebra em qualquer manifestação. Imaginem se o candidato que eles apoiam for ao segundo turno.

Como ainda faltam seis meses para a eleição, muita coisa pode mudar. Marine Le Pen tem no momento entre 31% e 36% dos votos no primeiro turno. Edouard Philippe, ex-primeiro-ministro que conseguiu se descolar do desastre de Emmanuel Macron, pode resgatar o naufrágio do centro. Nas pesquisas mais recentes, passou à frente de Mélenchon.

Se houvesse uma frente de todos os partidos de centro e de centro-esquerda no segundo turno, Philippe poderia até passar à frente de Marine. Seria uma saída razoável, mas está faltando razoabilidade à política francesa há um bom tempo.

Ricardo Motta

Ricardo Motta é jornalista e responsável editorial do Rio Hoje Notícias. Atua na cobertura de política, cidades, segurança pública, esportes e acontecimentos do estado do Rio de Janeiro. Contato editorial: contato@riohoje.com.br.
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