O cientista político Rafael Cortez analisou, em entrevista ao Hora H desta segunda-feira (5), os possíveis impactos do resultado das eleições sobre a pauta legislativa prevista para as próximas semanas, com destaque para a PEC que propõe o fim da escala 6×1, e sobre as perspectivas políticas para o segundo turno.
Segundo Cortez, a continuidade da pauta da jornada de trabalho no Senado está diretamente ligada aos interesses de Davi Alcolumbre (União-AP) em relação à sua permanência no comando da Casa.
“Ele vai conseguir ficar na presidência do Senado só em um cenário em que o presidente Lula consiga reverter o resultado do primeiro turno. Com Flávio Bolsonaro (PL), acho pouco provável que ele consiga acordo majoritário”, avaliou o analista.
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Cortez acrescentou que lideranças do PL, que terá a maior bancada em 2027, já sinalizaram interesse em disputar a presidência do Senado na próxima legislatura.
Cortez ponderou que obter o quórum constitucional necessário para aprovar a emenda que trata da escala 6×1 é uma tarefa complexa no atual cenário eleitoral.
“Muita incerteza. Com perspectivas de redução do poder de Lula diante do resultado do primeiro turno, é de tal sorte que já não é tão dado esse apoio constitucional para a emenda que os senadores eventualmente vão avaliar”, disse.
Para o analista, usar a PEC do fim da 6×1 como trunfo eleitoral para o segundo turno é uma construção política possível, mas não necessariamente a mais provável neste momento.
Por que a popularidade do governo estancou?
Sobre os motivos pelos quais a avaliação do governo não melhorou a despeito dos esforços legislativos, Cortez apontou dois fatores principais. O primeiro é de natureza econômica.
Segundo ele, apesar das medidas adotadas, o alto endividamento das famílias impediu a consolidação de uma sensação de segurança financeira.
“Por mais que o governo tenha feito programas como o Desenrola, eles são muito mais pontuais diante do dilema mais estrutural, que é um custo expressivo da dívida na vida das famílias”, afirmou.
O segundo fator, segundo Cortez, diz respeito à percepção do eleitorado sobre as medidas do governo. “O eleitorado percebeu como oportunistas as medidas que o governo fez e talvez algumas delas não só oportunistas, mas eventualmente não bem desenhadas para conseguir, de fato, responder às demandas da sociedade”, afirmou.
O analista citou como exemplos a abordagem sobre as apostas esportivas e a questão dos motoristas de aplicativos. “Será que o governo conseguiu entender o que de fato era preferência desse público-alvo?”, questionou Cortez.
Para as próximas três semanas que antecedem o segundo turno, Cortez não espera grandes novidades temáticas no debate público.
Na sua avaliação, o esforço do governo deve se concentrar em aprimorar a comunicação, após um primeiro turno em que os temas abordados, como o Supremo Tribunal Federal e discussões sobre soberania e terras raras, teriam ficado distantes da realidade concreta do eleitor.
Segundo ele, talvez a pauta do fim da 6×1 apareça com mais destaque, além de requentar temas que já foram abordados durante a campanha do primeiro turno na esperança de melhorar a comunicação com o eleitorado.
“Revolucionar a pauta da opinião pública a essa altura do campeonato, acho pouco provável”, concluiu o analista.





