O governo francês anunciou nesta quarta-feira, 7, a suspensão do uso de granadas de efeito moral pela polícia durante os protestos estudantis, após um adolescente de 15 anos perder a mão durante um confronto com policiais na cidade de Lens, no norte do país.
Em entrevista à rádio francesa RTL, o ministro do Interior, Laurent Nuñez, anunciou a suspensão até que haja mais informações sobre o incidente ocorrido. Segundo ele, existe uma “forte possibilidade” de que o disparo de uma granada de efeito moral tenha causado o ferimento no adolescente.
“Estou suspendendo o uso delas no movimento dos estudantes do ensino médio até que se esclareça o que aconteceu neste caso”, afirmou Nuñez, ressaltando que a suspensão se aplica “apenas aos protestos de estudantes do ensino médio” e “somente pelo tempo necessário para compreender o que aconteceu”.
Grupos de defesa dos direitos humanos, estudantes e parte da oposição política acusam a polícia francesa de usar força desproporcional durante a onda de protestos estudantis, que já dura mais de duas semanas.
No noroeste de Paris, outro estudante de 14 anos perdeu vários dentes devido à explosão de uma bomba de gás lacrimogêneo a curtíssima distância.
Mobilização
Nesta terça-feira, 256.000 pessoas participaram dos protestos em todo o país, sendo 56.000 só em Paris, segundo o Ministério do Interior francês. Os organizadores, por sua vez, estimaram uma mobilização bem maior: 450.000 manifestantes, incluindo 100.000 na capital. De acordo com a União dos Estudantes do Ensino Médio, 1.800 escolas foram bloqueadas ou fechadas durante o dia, de um total de 3.700.
Os protestos, inicialmente concentrados em escolas de ensino médio, também chegaram às universidades. Cerca de 40% das instituições públicas de ensino superior tiveram algum tipo de interrupção, entre bloqueios totais ou parciais, ocupações e fechamentos administrativos, de acordo com o Ministério do Ensino Superior. O sindicato União Estudantil, que lidera a onda de protestos nacionais, chegou a afirmar, mais cedo, que todas as universidades do país estavam mobilizadas.
+ Trump diz que protestos na França estão ligados à imigração em massa e ao islamismo
Em diferentes cidades, as manifestações foram marcadas por episódios de violência. Policiais utilizaram gás lacrimogêneo contra manifestantes em Paris, Lyon, Rennes e Estrasburgo nesta terça-feira, enquanto os participantes dos protestos incendiaram objetos e lançaram projéteis contra as forças de segurança.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu classificou a mobilização como a mais violenta registrada nas escolas francesas em décadas. Segundo seu gabinete, ao menos 715 policiais, 215 adolescentes e 85 funcionários ficaram feridos desde o início dos protestos.
Ao todo, 488 pessoas foram detidas apenas nesta terça, informou o Ministério do Interior. Desde 28 de setembro, quando a mobilização começou a ganhar força, 6.547 pessoas foram presas em atos relacionados ao movimento.
Diante do aumento da tensão, o presidente Emmanuel Macron convocou uma reunião no Palácio do Eliseu para discutir a situação. Participariam do encontro Lecornu, Nuñez e o ministro da Educação, Edouard Geffray.
Os protestos começaram no final de setembro em uma escola de ensino médio nos arredores de Paris, motivados pela escassez de professores. O governo foi pego de surpresa quando o movimento se espalhou por todo o país. Desde a última segunda-feira, os atos ganharam contornos violentos, com confrontos entre manifestantes e a polícia e incêndios em escolas.
Governo tenta acalmar a revolta
Os protestos continuam mesmo após Lecornu tentar acalmar os ânimos ao classificar as queixas dos estudantes como “legítimas”, afirmar que o governo precisa ouvir suas demandas e prometer propostas concretas até o final de outubro.
O premiê francês ordenou que seu gabinete aborde as cinco principais reivindicações dos estudantes, entre elas a substituição de professores ausentes, reconhecendo que alunos de algumas regiões perdem meses de aulas devido à escassez de profissionais — inclusive em anos decisivos para exames. Lecornu também pediu uma revisão da longa jornada escolar na França, que está entre as mais extensas da Europa.
O governo ainda analisará a realização de reparos em prédios escolares deteriorados. Manifestantes relataram infiltrações de água nas salas de aula, presença de baratas, desabamento de tetos e calor insuportável no verão.
“Nossa prioridade é restaurar a ordem”, disse a porta-voz do governo, Maud Bregeon, à emissora de TV CNews nesta segunda.





