Relatório aponta irregularidades na Megaoperação Contenção
Um relatório da Human Rights Watch revela graves falhas no uso de câmeras corporais durante a Megaoperação Contenção, que ocorreu nos complexos da Penha e do Alemão, em 28 de outubro de 2025. O estudo destaca que dos 117 mortos que não eram policiais, nenhum teve sua morte registrada pelas câmeras de segurança analisadas.
A pesquisa, que examinou cerca de 4,4 mil horas de gravações de 527 policiais, também revisou laudos de necropsia e documentos oficiais, além de quase 600 vídeos e fotografias.
Foram realizadas entrevistas com 41 testemunhas, incluindo familiares das vítimas e autoridades locais.
Obstrução de câmeras e manipulação de evidências
O relatório apontou 278 ocorrências de obstrução de câmeras, envolvendo 132 policiais. Entre as irregularidades, foram documentados casos de equipamentos serem retirados dos corpos, lentes cobertas e câmeras deixadas em viaturas.
A análise indicou que em 146 desses episódios havia indícios de manipulação intencional das gravações.
Dados do governo estadual, que foram enviados ao Supremo Tribunal Federal, mostraram que apenas 23% dos aproximadamente 2,5 mil policiais mobilizados durante a operação usavam câmeras corporais. A Human Rights Watch também criticou a investigação das mortes, afirmando que as equipes de perícia não foram enviadas aos locais dos assassinatos e que a Polícia Civil só reuniu informações básicas sobre duas das 117 vítimas não policiais.
Uso excessivo da força e fragilidade nas investigações
Uma análise dos laudos de necropsia revelou que mais de 60% dos mortos foram atingidos por quatro ou mais disparos, levantando suspeitas sobre uso excessivo da força e possíveis execuções intencionais. A organização enfatiza que a eventual ligação das vítimas com o tráfico não justifica a violação de direitos humanos ou o uso ilegal da força.
O documento ainda reporta agressões a um adolescente de 16 anos, registradas por câmeras corporais, e destaca que a retirada dos corpos sem perícia comprometeu a coleta de provas fundamentais.
Até a elaboração deste relatório, 19 policiais enfrentavam acusações como invasão de domicílios e manipulação de câmeras, porém nenhum foi acusado de uso ilegal da força, e os comandantes envolvidos na operação não foram responsabilizados.
A reportagem tentou contato com as polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro, mas o espaço permanece aberto para respostas.


