Por Raíra Morena
Cultura, memória e identidade étnico-racial estiveram no centro das discussões durante o Seminário de Educação Antirracista e Educação Escolar Quilombola, promovido pela Prefeitura Cabo Frio. O encontro reuniu escolas quilombolas da rede, estudantes, gestores, educadores e convidados em dois dias de formação, diálogo, apresentações culturais, compartilhamento de práticas pedagógicas e oficinas temáticas.
Organizado pela Secretaria Municipal de Educação, o seminário também proporcionou momentos de reflexão sobre o trabalho e o papel da escola na valorização das identidades, dos territórios, das histórias e dos conhecimentos das comunidades quilombolas. O secretário da pasta, Alessandro Teixeira, acompanhou de perto toda a programação.

“Mais do que uma abordagem histórica, o seminário propôs reflexões sobre questões contemporâneas que nos envolvem diretamente, como a autodeclaração, a equidade racial e o combate ao racismo. É dialogando com os alunos e com a comunidade que vamos encontrar a melhor maneira de fazer pulsar, nas nossas escolas, temas que historicamente perpassam a nossa sociedade. Esse é um trabalho contínuo, porque cada um de nós é um agente de transformação e de multiplicação desse conhecimento”, disse.

A abertura do evento, na sexta-feira (18), contou com apresentações culturais de alunos das escolas quilombolas da rede municipal, valorizando manifestações ligadas às histórias e identidades das comunidades. Também foi realizada uma homenagem ao estudante Aleffy Ribeiro, da Escola M. Angelim, destaque no Festival Internacional de Dança 2026, e a entrega do 3º Guia Pedagógico de Educação Escolar Quilombola às diretoras das unidades escolares.

Um dos momentos de destaque foi o anúncio de que a Escola Municipal Profª. Alitta Maria do Valle passa a integrar a rede de escolas quilombolas do município, que agora conta com 12 unidades quilombolas. A novidade decorre da certificação da comunidade de Gargoá pela Fundação Cultural Palmares como remanescente de quilombo, conforme a Portaria FCP nº 305, publicada em julho deste ano.
Para o pesquisador e convidado Rodney Alves de Oliveira (Caboclo), que integrou a mesa “Diálogos para a Construção da Equidade Racial na Educação”, a programação evidenciou a importância de valorizar os conhecimentos e as manifestações culturais presentes nas comunidades do município.

“Ver os estudantes manifestando sua cultura, sua dança, as vestimentas e sua própria identidade com orgulho reforça que o poder público está não apenas financiando, mas também valorizando. E a gente precisa disso: dar valor ao que tem valor. Precisamos discutir e recuperar nossa história e nossa origem indígena”, destacou Rodney, especialista em Psicologias Indígenas.

A programação também contou com a participação especial do psicólogo e professor doutor André Luís de Oliveira de Sant’Anna, coordenador e docente titular do curso de Psicologia da Universidade Estácio de Sá, campus Cabo Frio. “A possibilidade de refletir sobre um tema tão fundamental como a educação antirracista é sempre importante, sobretudo ao lado de tantos pares e personalidades potentes, que têm contribuído para que essas discussões também aconteçam em outros espaços para além das nossas salas de aula”, ressaltou.
Práticas antirracistas e quilombolas na rede municipal
Durante a tarde, o seminário abriu espaço para a Mostra de Práticas Pedagógicas Antirracistas e Quilombolas, com a apresentação de experiências desenvolvidas pelas unidades quilombolas da rede. A iniciativa possibilitou que os profissionais compartilhassem estratégias construídas no cotidiano escolar para trabalhar questões relacionadas às relações étnico-raciais, à cultura, ao pertencimento e aos saberes quilombolas.

Entre as experiências apresentadas esteve o trabalho desenvolvido pela Escola M. de Educação Infantil Profª. Cleusa Guimarães Faria Braga, localizada no território do Quilombo de Maria Joaquina. A equipe vem promovendo um processo de ressignificação da proposta pedagógica e da identidade escolar, aproximando as vivências das crianças dos elementos culturais e naturais do território, passando por projetos de literatura infantil e outras iniciativas. A identidade visual da unidade também foi revisitada, incorporando referências como a aroeira, árvore encontrada em abundância na região, e grafismos afrorreferenciados presentes em tecidos utilizados em artefatos produzidos e comercializados por mulheres da comunidade.

No sábado (19), a programação continuou na escola quilombola Francisca Nazareth de Souza, em Tamoios, com o tema “Identidade, Pertencimento e Educação para a Equidade Racial”. A mesa de diálogo foi composta pelo jovem quilombola Samir Dutra, pela articuladora da Educação Escolar Quilombola da Secretaria Municipal de Educação, Juliana Pacheco, e pela articuladora da Educação para as Relações Étnico-Raciais da pasta, Sílvia Rohem.

O evento foi marcado pela realização de oficinas voltadas à construção de práticas pedagógicas relacionadas aos saberes e às culturas quilombolas. Entre as atividades estiveram propostas sobre plantas medicinais, alimentação, identidade e cultura, esportes africanos, indígenas e quilombolas, geotinta e uma “Feirinha Quilombola”, com demonstrações de como trabalhar em sala de aula a partir de produtos agrícolas.





