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Dados: MET Norway · CC BY 4.0

Sintra-Cascais, onde o mar se acaba

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Por Ruben Vicente

No ponto mais ocidental da Europa continental, a 140 metros de altitude, as palavras do poeta ainda ecoam ao vento, em homenagem ao lugar “onde a terra se acaba e o mar começa”. Luís Vaz de Camões certamente terá sentido esta inspiração epopeica ao contemplar o infinito azul do Atlântico a partir do cabo da Roca. A aura verde, também ela feita de lendas, aponta na direcção oposta e leva-nos hoje a dizer que este também é o lugar onde o mar acaba e o Parque Natural de Sintra-Cascais começa.

Abrangendo uma área com pouco mais de 14.500 hectares, o Parque Natural de Sintra-Cascais estende-se da serra de Sintra à costa atlântica, juntando os concelhos de Sintra e Cascais. Estabelecido em 1981 como Área de Paisagem Protegida, foi promovido em 1994 a Parque Natural para melhor gerir o seu património natural, arquitectónico e histórico.

Geologicamente recente, de origem eruptiva, a serra de Sintra formou-se há cerca de 90 milhões de anos, no Cretácico Superior. Tem o seu ponto mais elevado na Cruz Alta, a 528 metros de altitude, mas vários miradouros naturais permitem, em dias de boa visibilidade, apreciar um vasto panorama litoral, do cabo Espichel, a sul, às Berlengas, a norte.

Lagoa Azul

GETTY IMAGES | A Lagoa Azul é um espelho de água na encosta virada a sul.

 

Lembrando as ruínas de um povo ancestral engolidas pela natureza, os curiosos campos de lapiás, formados pela erosão provocada pela ácida água das chuvas, podem ser apreciados na Boca do Inferno, na Granja dos Serrões e em Negrais. No litoral, a estoicidade de formações rochosas como as encontradas nas praias da Ursa e da Adraga, aliadas ao rugido das pedras roliças das praias da Grota e Porto do Touro, trazem memórias de um Adamastor adormecido. Mas nada que impedisse uma corajosa franja da população de construir a sua habitação nas arribas da impressionante aldeia das Azenhas do Mar.

Do Atlântico, chegam ventos húmidos que, ascendendo por praias e falésias, abraçam a verdejante vegetação serrana e, com frequência também, os seus visitantes. Este clima, que tanta humidade retém na serra, contribui em muito para o desenvolvimento de uma diversificada vegetação. Por contraste, as zonas costeiras apresentam temperaturas mais elevadas e menos pluviosidade, convidando os banhistas a um mergulho oceânico nas diversas praias da Costa do Sol ou a aproveitar as excelentes condições para a prática de surf e windsurf na praia do Guincho.

Mar
RUBEN VICENTE | Sintra é a simbiose perfeita entre oceano e serra.

 

Na faixa litoral, concentra-se a maior parte das espécies de flora endémicas, como o cravo-romano e o cravo de Sintra. O miosótis-das-praias ocupa o sistema dunar Guincho-Oitavos. Já na serra, o azevinho, o feto-de-folha-de-hera e o samouco são algumas das relíquias ameaçadas. Em contrapartida, a beleza dos jardins dos parques da Pena e de Monserrate é de cariz mais exótico, pois foram concebidos como parques florestais de espécies introduzidas. Entre elas, a que maior distribuição tem em toda a área do Parque, sobretudo na zona litoral, é o chorão-das-praias, originário da África do Sul.

A espécie humana tem estado intrinsecamente ligada à extinção de muitos organismos, mas não foi responsável pelo desaparecimento dos dinossauros que, há cerca de 120 milhões de anos, deixaram as suas pegadas no terreno lamacento que, por acção tectónica, se situam agora na arriba sul da Praia Grande.

Beneficiando das falésias costeiras, o visitante mais atento pode agora ser brindado pela presença do animal mais veloz do planeta, o falcão-peregrino.

Com sorte, poderá assistir a este exímio predador em busca de uma das suas presas favoritas, o pombo-das-rochas.

Peninha
GETTY IMAGES | Neblinas frequentes conferem uma aura de magia à Peninha.

 

Aproveitando os solos férteis, o clima e as fortificações naturais, vários povos estabeleceram-se neste território. Há evidências de ocupação no Neolítico, ora através do uso de grutas naturais, como as do Poço Velho, em Cascais, ora pela presença de cerâmicas decoradas, descobertas junto da Capela do Castelo dos Mouros. No início do quarto milénio antes da nossa era, a 490 metros de altitude, foi erguido o tholos do Monge, monumento pré-histórico constituído por uma estrutura funerária colectiva e hoje localizada perto do marco geodésico com que partilha o nome.

Além da presença romana e visigoda, o domínio muçulmano deixou marcas que perduram até aos nossos dias. Da toponímia, são exemplos Alcoitão, Alcabideche ou Sintra, do árabe Xintara.  E um dos testemunhos arquitectónicos mais visíveis desta presença é o Castelo dos Mouros, construído por volta do século X que, com as suas muralhas graníticas serpenteando pela serra, seria um importante baluarte de defesa da população.

Castelo e vila
GETTY IMAGES | Castelo e vila: a ocupação desde a pré-história faz parte do encanto da região.

 

A partir do século XIX, a região viveu um momento de simbiose entre a paisagem natural e arquitectónica, por influência de Dom Fernando II e do romantismo. O Palácio da Pena, um dos mais notáveis ícones do Parque, visível de quase todos os pontos da área protegida, foi o expoente máximo desta nova arquitectura. Integrados neste movimento de renascimento romântico, o Palácio de Monserrate e a Quinta da Regaleira são parte do roteiro de milhares de visitantes. Jardins e florestas luxuriantes, com espécies oriundas de todo o mundo, buscam a harmonia entre elementos culturais e naturais e contribuíram para a classificação de Sintra como Património Mundial. Não é de admirar que este território tenha servido de inspiração a músicos-pintores como Alfredo Keil ou a escritores como Eça de Queirós e Ramalho Ortigão.

Palácio da Pena
GETTY IMAGES | O Palácio da Pena, um sonho arquitectónico de Dom Fernando II, pode ser apreciado de quase todos os pontos da serra.

Esta bruma da memória de antigos palácios imbuídos na paisagem natural, os zoomorfismos dos sienitos na Peninha ou o murmúrio resultante da valsa das árvores ao ritmo do vento, em muito contribui para o misticismo que Sintra e a sua serra têm usado para seduzir os visitantes ao longo do tempo.

 

Fonte https://www.nationalgeographic.pt/viagens/sintra-cascais-onde-mar-se-acaba_7517