Mais de 100 colonos israelenses atacaram uma vila palestina na Cisjordânia ocupada na madrugada desta terça-feira, 29, recebendo condenações dos Estados Unidos e do próprio governo de Israel após ferirem três membros das forças de segurança.
Dois lares da família al-Tubasi em Jalud, ao sul de Nablus e no norte do território palestino, foram incendiadas na operação na noite de segunda-feira e soldados israelenses também foram alvo dos colonos.
“Foi extremamente assustador, além das palavras. É difícil imaginar a situação”, disse Mahmoud al-Tubasi à emissora britânica BBC. “Minha sensação agora é que estou feliz por ter escapado da morte. Eu realmente esperava que eles fossem nos matar.”
Os Estados Unidos declararam, nesta terça-feira, 29, que “condenam a violência criminosa” na Cisjordânia ocupada.
“Condenamos a violência criminosa de qualquer lado na Cisjordânia e apoiamos as investigações pertinentes, a responsabilização legal e os processos judiciais para aqueles que forem considerados responsáveis”, afirmou à AFP um porta-voz do Departamento de Estado, ao ser questionado sobre o ataque na aldeia de Jalud.
Relato das vítimas
Um grande número de colonos extremistas chegou a Jalud após alertas serem postados em grupos do WhatsApp que eles usam para coordenar ações, dizendo que a família palestina que haviam forçado a sair estava retornando e deveria ser detida. Uma decisão da Suprema Corte de Israel, que criticou as autoridades do governo por não reprimirem a violência nos assentamentos, determinou que a família deveria ser devolvida em segurança à sua casa até 20 de setembro, data que passou a quase dez dias.
Mahmoud al-Toubasi disse à agência de notícias AFP que ele e seus parentes haviam deixado a casa há mais de dois meses, e que ela havia sido ocupada por colonos até o ataque de terça-feira.
“Minha esposa, meu filho e eu fomos para a casa de carro, acompanhados por um veículo militar à nossa frente e outro atrás”, disse ele.
Colonos atacaram o grupo ao chegarem à casa e foram forçados a recuar por soldados com spray de pimenta, acrescentou.
“Assim que entramos na casa, que já havia sido completamente destruída, os colonos começaram a jogar pedras em nós. O exército respondeu disparando spray de pimenta contra eles, mas havia tantos colonos, mais de 150, que o exército não conseguiu mais controlá-los”, disse Tubasi. “Não ficamos feridos fisicamente, mas sofremos um pouco de engasgo com o spray de pimenta”, acrescentou.
Ele disse, porém, que as forças de segurança israelenses “não tomaram nenhuma ação contra os colonos”, além de terem formado “uma barreira para nos tirar de lá em segurança”.
O chefe do conselho local em Jalud disse a repórteres da BBC que moradores confrontaram os colonos, levando a confrontos que chegaram a se espalhar até para uma vila próxima, onde uma mulher palestina foi agredida e sua casa, incendiada.
Em um ataque separado na terça-feira, dezenas de colonos de postos avançados no topo de colinas invadiram a vila palestina de Al-Mughayyir, ao nordeste de Ramala, disseram moradores à AFP. Pelo menos cinco carros foram queimados como resultado.
Em outro incidente na noite de terça-feira, o Crescente Vermelho Palestino informou que suas equipes estavam “tratando três pessoas que foram agredidas e espancadas por colonos na área de Jamala, perto de Ramallah” e as levando ao hospital.
Reação de Israel
Um comunicado das Forças de Defesa de Israel (IDF) informou que “mais de 100 manifestantes israelenses estavam presentes na vila, bloqueando estradas, incendiando pneus e jogando pedras nas forças de segurança.”
O Exército israelense afirmou que três policiais ficaram levemente feridos e um veículo das forças de segurança foi danificado. Também descreveu a família Tubasi como vítimas de “crime nacionalista”, acrescentando que “devido à violência, a missão de devolver a família à sua casa não foi concluída.”
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, por sua vez, condenou o ataque, que atribuiu a “um pequeno grupo de manifestantes”.
Suas ações “causam grande dano àquela comunidade e interferem com nossas forças enquanto cumprem sua missão”, disse ele.
O presidente Isaac Herzog, que ocupa um papel em grande parte cerimonial, chamou o ataque de “uma mancha moral, um ataque ao Estado de Direito e aos nossos valores mais fundamentais”. Tais críticas de autoridades israelenses são raras para ataques em que as vítimas são palestinas.
A violência aumentou na Cisjordânia desde o início da guerra de Gaza, em outubro de 2023, com soldados ou colonos israelenses matando pelo menos 1.111 palestinos nesse período, incluindo militantes e civis, segundo dados do Ministério da Saúde palestino. Os níveis de violência dos colonos atingiram um recorde histórico este ano, segundo as Nações Unidas, que afirmam que, desde 2023, mais de 6.500 palestinos foram deslocados devido a ataques de colonos e restrições de acesso.
No mesmo período, dados de Israel mostram que pelo menos 49 israelenses, incluindo civis e agentes de segurança, foram mortos em ataques palestinos ou durante operações militares israelenses.
Israel ocupa a Cisjordânia desde 1967 e vem acelerando a expansão dos assentamentos ali. Cerca de 500 mil colonos israelenses vivem entre 3 milhões de palestinos. Assentamentos e postos avançados são ilegais segundo o direito internacional.





