O papa Leão XIV afirmou nesta segunda-feira, 29, que a ascensão da extrema direita na Europa não “constitui uma expressão autêntica do cristianismo”. A declaração foi feita durante uma coletiva de imprensa realizada no voo de retorno à Roma após sua passagem na cidade de Metz, no leste da França.
Durante a coletiva, um dos jornalistas perguntou ao pontífice sobre uma eventual visita à Alemanha e a relação entre o declínio da Igreja Católica e o crescimento de partidos extremistas no país. Leão explicou que deseja ir à Alemanha como papa, mas ainda não tem uma programação definida. Entretanto, ele afirmou que seria interessante estudar e analisar “se existe, e de que maneira poderia existir, uma relação, entre o crescimento desses grupos de extrema direita”.
O pontífice também deixou claro que pretende manter contato com as lideranças religiosas alemães, tanto protestantes quanto católicas. De acordo com Leão, ambos os lados já se pronunciaram contra o uso da religião para justificar determinadas posições radicais.
“E, mais uma vez, voltamos aos valores do Evangelho, que não são valores de ódio e divisão, mas de compreensão, compaixão e acompanhamento”, disse. O papa acrescentou que espera que a Igreja continue encontrando maneiras de se aproximar das pessoas de boa vontade, “que compreenderão a importância de seu compromisso, inclusive por meio da participação nos procesos políticos”.
Segundo ele, sua vontade é que as pessoas façam escolhas visando o bem comum, e não apoiem ideias extremistas que podem causar danos muito maiores à sociedade. “Mais uma vez, de nossa parte, como Igreja, por meio da Doutrina Social da Igreja, cabe-nos falar, ensinar e pregar aquilo que acreditamos serem valores que promovem a vida, e não a destruição, a divisão e o ódio”, concluiu.
Cenário político alemão
A extrema direita alemã tem como seu principal expoente o partido ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD), sigla vigiada pela polícia por seu radicalismo e simpatia por uma parte do ideário de Adolf Hitler.
Em setembro de 2026, a legenda venceu as eleições estaduais da Saxônia-Anhalt, no leste do país, com cerca de 44% dos votos. Agora os políticos ali abrigados se mexem para viabilizar uma coalizão que lhes garanta o poder. Mesmo que não cheguem lá, só a possibilidade de um partido com esse perfil ganhar tamanha envergadura já é um marco perigoso.
O próprio chanceler Friedrich Merz, da União Democrata-Cristã (CDU), que ficou quase trinta pontos atrás da AfD, avaliou: “A Alemanha nunca mais será a mesma”.
A secretária-geral da sigla, Franziska Hoppermann, por sua vez, garantiu que não há possibilidade de diálogo com o partido extremista. “Não haverá cooperação com a extrema direita”, disse.
Curiosamente, neste momento a trajetória ascendente da AfD depende da Aliança Sahra Wagenknecht (BSW), partido radical da esquerda que mescla populismo econômico com ideias conservadoras. “Impedir a AfD de assumir o poder seria uma afronta aos eleitores”, chegou a declarar Sahra Wagenknecht, à frente da nanica legenda que pode se tornar o fiel da balança.





