Pegadas ancestrais preservadas às margens do Lago Turkana, no Quênia, apontam que os parentes extintos do homem moderno eram muito maiores do que se imaginava e se deslocavam em grupo há mais de 1,4 milhão de anos. Segundo autores de um artigo publicado na revista Pnas, que descrevem um conjunto de rastros fossilizados na região, isso muda a compreensão da ciência sobre os nossos ancestrais.
A equipe utilizou cinzas vulcânicas nas rochas circundantes para datar o rastro como sendo do Pleistoceno Inferior, há cerca de 1,43 milhão de anos. Naquela época, as margens do Lago Turkana eram habitadas por uma variedade de animais, incluindo crocodilos, elefantes e duas espécies diferentes de ancestrais humanos, ou hominídeos: o Paranthropus boisei, uma espécie robusta com dentes fortes, e o Homo erectus, um possível ancestral direto dos humanos atuais.
Em 2024, integrantes da equipe de pesquisa descreveram um rastro ligeiramente mais antigo na área que preservava pegadas de ambas as espécies de hominídeos antigos. Isso revela que as duas coexistiram nesses habitats por centenas de milhares de anos. “Não podemos afirmar como os dois hominídeos interagiram nos bancos de lama, mas sabemos que ambos estavam aqui naquele momento”, disse, em nota, a pesquisadora Kay Behrensmeyer, geóloga do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian e autora principal.
Movimento
A equipe analisou a anatomia e os padrões de movimento das pegadas fósseis deixadas por um Paranthropus e determinou que as características corporais do indivíduo eram semelhantes às dos humanos — até 1,8m de altura e cerca de 75kg. Isso surpreendeu os pesquisadores, pois, até agora, se acreditava que esse antigo ancestral era muito mais baixa. O sítio arqueológico também revelou que os machos adultos às vezes viajavam em grupos.
“A descoberta sugere uma estrutura social complexa nessa espécie”, disse Neil Roach, pesquisador da Universidade Harvard e coautor do novo artigo. “Eles podem ter vivido em grandes grupos, onde os machos competiam por parceiras, mas também se toleravam em certos momentos para se protegerem em um ambiente perigoso.”
O sítio de pegadas recém-descrito está entre centenas de passos descobertos em toda margem leste do Lago Turkana. As marcas foram depositadas ao longo de mais de 100 mil anos, e Behrensmeyer acredita que uma melhor compreensão da geologia que as preservou pode esclarecer por que os hominídeos locais frequentavam esse ambiente às margens do lago. “Quando encontramos esses fósseis em 1978, jamais imaginei que eles se tornariam um conjunto tão grande e forneceriam informações tão abrangentes sobre a ecologia desses hominídeos”, disse, com entusiasmo, a geóloga.