A poucos dias das eleições no Brasil, que têm no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e no senador Flávio Bolsonaro (PL) seus protagonistas, o olhar da imprensa internacional sobre a disputa ganhou tons severos e dramáticos. A síntese mais ácida dessa cobertura veio da tradicional revista britânica The Economist, que publicou uma análise sob a provocativa manchete: “O próximo presidente do Brasil será um nepobaby vingativo ou um esquerdista decrépito”.
A publicação definiu o pleito como um “concurso de impopularidade” em que a “decepção é garantida”, descrevendo Lula como um líder idoso comparável ao ex-presidente americano Joe Biden e criticado pela indisciplina fiscal, enquanto retrata Flávio como um herdeiro político cuja principal plataforma é indultar o pai, Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
“Nenhum dos dois é credível quando se trata de enfrentar os dois maiores problemas do Brasil: a corrupção enraizada e a expansão implacável dos gastos públicos”, diagnosticou a revista em outra matéria, intitulada “O Brasil dá as costas ao futuro”. “O futuro reluzente do Brasil ficará suspenso por pelo menos mais quatro anos”, completou o texto.
Risco de ‘involução democrática’
Essa visão cética sobre o futuro político e econômico do país é compartilhada por outros veículos europeus. O jornal britânico The Guardian destacou em editorial que a escolha dos eleitores brasileiros “afetará o mundo inteiro”, alertando que uma vitória do senador do PL representaria um grave risco para a democracia e para o meio ambiente na Amazônia, além de dar mais fôlego à postura intervencionista de Donald Trump na América Latina.
“O presidente Donald Trump e Marco Rubio, seu secretário de Estado, ficarão ainda mais encorajados em sua ‘doutrina Donroe’ de intervenção agressiva no hemisfério ocidental se o Bolsonaro Jr. for vitorioso”, analisou o editorial.
Na Espanha, a análise do El País ganhou contornos de alerta institucional detalhado sob o título “Brasil, perigo de involução”. O jornal enfatiza que as urnas brasileiras decidirão se a nação continuará avançando como uma potência democrática e regional ou se corre o risco de cair novamente no autoritarismo, exatamente quatro anos após os atentados de 8 de janeiro de 2023 contra as sedes dos Três Poderes.
Segundo o diário espanhol, embora o senador se apresente como uma versão mais moderada do pai, sua plataforma é inseparável do clã familiar, destacando, aqui também, a promessa de indultar Jair Bolsonaro. O texto alerta que um triunfo do bolsonarismo sabotaria o papel do Brasil como contrapeso diplomático frente à renovada doutrina de “quintal dos fundos” impulsionada por Washington.
‘Três Brasis’
Paralelamente, veículos do continente enfatizam como o escândalo financeiro do Banco Master enredou a classe política e o Judiciário brasileiro, reforçando o desencanto e o cinismo do eleitorado diante dos candidatos. Nos Estados Unidos, o foco das atenções recai sobre a geopolítica e a ingerência externa.
O jornal The New York Times dedicou uma extensa reportagem ao chamado “Fator Trump”, questionando se o presidente americano tentará influenciar o acirrado pleito brasileiro em favor de Flávio e detalhando como as autoridades em Brasília ergueram uma “barreira de proteção” para combater a desinformação e proteger as urnas eletrônicas de ingerências internacionais.
Aprofundando a radiografia política brasileira, o jornal argentino Clarín destrinchou a disputa sob o conceito dos “três Brasis”: Lula lidera em 10 estados (todo o Nordeste e Amapá), Flávio Bolsonaro predomina em 8 estados (incluindo Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina e o Centro-Oeste) e outros 9 estados aparecem empatados na margem de erro, entre eles os cobiçados colégios de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.
Diante da apatia nas ruas — onde os eleitores recorrem ao “voto cruzado” para optar por quem rejeitam menos —, a matéria destaca que a chave da eleição está nos independentes e indecisos, que somam entre 24% e 36% do eleitorado em estados estratégicos.





