Cidades

Censura livre: mesmo antes debutarem nas urnas, jovens fazem política no Rio

Aos 16 anos, Fernanda Oliveira parece ter aprendido cedo a lição deixada por Bertolt Brecht (1898-1956) de que o pior analfabeto é o analfabeto político. Em uma campanha on-line para se tornar parlamentar juvenil por Duque de Caxias, a estudante avisou aos colegas pelas suas redes sociais: “A política vai se meter na sua vida, na sua liberdade, no seu salário, na sua segurança e no seu futuro”. Recebeu 156 votos e foi eleita. No próximo domingo (4), Fernanda vai votar pela primeira vez. Antes mesmo de chegar à urna, porém, já participou de um processo eleitoral, fez campanha pelo celular e passou a exercer um mandato. Ao lado de 96 pares de todo o estado, ajudou a elaborar projetos na Assembleia Legislativa do Rio que podem vir a se tornar leis de verdade, caso sejam apadrinhados por deputados e levados para aprovação no plenário formal. A trajetória da estudante ajuda a entender uma mudança na relação dos jovens com a política. Para uma geração que já nasceu conectada, a política começa cada vez mais nas telas, mas não termina nelas. “À direita e à esquerda, a juventude vem mostrando sua importância no jogo eleitoral”, atesta a cientista política Mayra Goulart, professora da UFRJ e coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada.

A eleição que se aproxima coloca essa turma diante da urna, mas o envolvimento com a vida pública já acontece por outros caminhos – das redes sociais às ferramentas criadas para entender propostas de candidatos e combater a desinformação. Um trio tomou para si essa responsabilidade ao criar o Politicando, site gratuito que reúne dados verificados em fontes oficiais sobre 1 051 nomes de todos os partidos na disputa pela Presidência, governos estaduais, Senado e Câmara dos Deputados. Com recursos de IA, a plataforma oferece um quiz de afinidade política composto de dezesseis questões sobre oito áreas, como economia, segurança e meio ambiente. “Esse match entre candidatos e eleitores já nos rendeu o apelido de Tinder eleitoral”, diverte-se o estudante de direito João Pedro Menin, de 19 anos, que com Luiz Lira, 19, também aluno de direito, ajudou a desenvolver a ideia do carioca Pedro Weinberg Lima, 20. Brincadeiras à parte, Lima, que está cursando economia, reforça a seriedade do problema enfrentado por seus contemporâneos, entre os principais alvos das fake news. “Tenho a impressão de que está todo mundo cheio de certezas, mas sem embasamento, o que é mais perigoso do que estar em dúvida”, analisa. “Alguns amigos que pensavam em votar num determinado candidato, ao acessar o aplicativo, descobriram que as propostas eram bem diferentes do que imaginavam”, acrescenta.

A fala de Lima aponta para um desafio que vai além de identificar a desinformação: mais difícil do que encontrar os dados é aprender a navegar por eles. “Em meio a discursos superficiais, queremos levar conteúdo on-line de qualidade e acessível aos jovens”, explica o estudante de comunicação Erick Azevedo, 27, que mora no Rio e é relações públicas da Politize!. Ao longo de onze anos, a plataforma digital de educação política alcançou mais de 120 milhões de usuários ativos, consumindo os mais de 5 000 conteúdos produzidos. “Chegou um momento em que a gente percebeu que esse formato passivo não era suficiente, e passamos a capacitar pessoas para levar informações aos territórios onde vivem”, diz ele. Surgiram então as chamadas embaixadas –  só em solo fluminense são seis. Com recursos da fundação alemã Konrad Adenauer (KAS), criada para promover a democracia, a Politize! Já realizou grandes campanhas, como a que incentivou a turma de 16 e 17 anos a tirar o título; acaba de lançar um guia do eleitor e monta barraquinhas em locais estratégicos, como a Feira da Glória. Uma delas, em parceria com o TikTok, é dedicada ao combate à desinformação e promove um quiz que rende brindes. “Também criamos um jogo on-line com foco nas fake news, o IAgora?, baseado na teoria da inoculação. O jogador tem contato com notícias falsas para saber identificá-las e não ser enganado.”

A conexão que amplia possibilidades, no entanto, embute uma questão delicada: essa é uma geração que praticamente não conheceu o mundo antes das telas e que se informa dentro de ambientes digitais moldados por algoritmos. Para Mayra Goulart, da UFRJ, isso a deixa especialmente exposta aos efeitos da chamada dissonância cognitiva, fenômeno que hoje atravessa a sociedade e deriva do fato de que muita gente se informa atualmente através de redes sociais – no caso dos jovens, esse número chega a 39%, de acordo com um estudo do Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, na Inglaterra, publicado no início do ano. “As plataformas têm filtros associados ao que o usuário gosta, além de seguir os interesses das big techs que as controlam. Assim, o entendimento dele do real vai sendo moldado”, diz a professora, alertando para o fato de que essa parcela da população é ainda mais suscetível à dinâmica de polarização que se vê no mundo inteiro. Isso se reflete também no perfil mais conservador que essa faixa etária, historicamente associada a posições mais progressistas, vem adotando. “Principalmente os meninos, mais capturados por discursos misóginos, antifeministas, incel e redpil ”, explica a cientista social.

No Rio, o número absoluto de eleitores de 16 e 17 anos quase dobrou em seis anos: passou de 35 321 em 2020 para 67 628 em 2026. Até os 24 anos, eles somam 1 308 577, o que corresponde a 10,17% dos eleitores do estado – um pouco abaixo dos 10,63% de 2024, em razão do envelhecimento da população. É uma parcela pequena, mas que começa a ocupar espaço no eleitorado e cuja participação na vida pública já vai muito além do voto. O Pacto pela Juventude, da Secretaria municipal da Juventude, em parceria com a Unesco, é um exemplo dessa atuação mais próxima do território. O programa qualifica jovens de 15 a 29 anos em liderança comunitária, solução de demandas locais, empreendedorismo e geração de renda. Os participantes recebem auxílio de 400 reais para que, durante seis meses, estudem formas de impactar positivamente a realidade de suas comunidades. Neste ano, 400 jovens de quarenta favelas foram selecionados dentre 11 431 inscritos. Já o Parlamento Juvenil, da Alerj, registrou recorde de inscrições e aumento de 184 candidatos em relação a 2025. “Superamos as expectativas, inclusive de participação feminina: na última edição, mais de 70% dos interessados eram meninas”, comemora a pedagoga Susi Duarte, que coordena a iniciativa apartidária, lembrando que a irmã gêmea de Fernanda, Marcela, foi eleita em 2025.

A experiência juvenil pode se tornar o primeiro capítulo de uma trajetória na vida pública. Foi o que aconteceu com o secretário municipal de Educação, Hugo Nepomuceno, de 40 anos, que deu os primeiros passos na política no grêmio estudantil do Colégio Estadual Dom Pedro I, em Mesquita, na Baixada Fluminense, e integrou o Parlamento Juvenil da Alerj em 2004. “A pauta da época era o passe livre nos transportes. Aprendi a transformar indignação em projetos. Muitas vezes, a gente briga por algo sem conhecer a melhor forma de lutar”, constata. Quando atuou como subsecretário da pasta, em 2022, Nepomuceno ajudou a elaborar com a Câmara Municipal uma experiência similar à da Alerj, só que destinada aos alunos do Ensino Fundamental II da rede. Desde então, anualmente, 51 vereadores mirins apresentam seus projetos e votam no plenário da Casa. Alguns textos aprovados são levados formalmente ao prefeito. “Hoje temos uma lei de enfrentamento ao bullying na nossa rede que é fruto de reflexões trazidas pelos representantes da Câmara Juvenil. A campanha Maio Laranja, de conscientização sobre o abuso sexual infantil, também foi proposta por eles”, elenca o secretário. Da mesma forma, o Poder Judiciário busca se aproximar dos futuros eleitores levando juízes eleitorais a instituições não só para tratar do significado e das consequências do voto, mas para apresentar as urnas eletrônicas, dando a oportunidade de eles simularem suas primeiras escolhas de representantes do Legislativo e Executivo.

Apesar da polarização que acirra os debates tanto na internet quanto na rua, uma parcela dos jovens já conseguiu entender que a política se constrói no dia a dia. Hoje, um adolescente prestes a exercer seu direito cívico na urna pode comparar candidatos com ajuda da inteligência artificial, chegar à política por uma rede social, arregaçar as mangas para resolver um problema no próprio bairro ou passar uma semana dentro do plenário de uma casa legislativa. Essas experiências mostram uma geração que não está se afastando das discussões importantes. Pelo contrário: a forma de se relacionar e pensar sobre elas é que mudou. “O frescor da juventude é importante para oxigenar a política”, defende Renan Ferreirinha, que em 2018, então com 24 anos, foi eleito o deputado estadual mais jovem do Rio. Interessar-se pela administração pública e o poder que a envolve vai muito além de paixões e ideologias partidárias – no melhor estilo aristotélico, que se aprende na escola, é sempre bom lembrar: o ser humano é um “animal político” por natureza, e não vive de forma isolada, mas em sociedade. “Política é uma das coisas mais importantes do Rio, do Brasil e do mundo”, reforça Pedro Weinberg Lima, que não se esquece da lição. 

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Mudança de perfil

Para o público jovem, redes sociais e IA já fazem parte da rotina de informação

64%se informam diariamente, ainda que de forma incidental, ao rolar o feed das redes

39%afirmam que as redes sociais são sua principal fonte de informação

47%costumam usar o Instagram para se atualizar

15%buscam a IA para saber dos acontecimentos

14% preferem acessar diretamente sites de notícias

Fontes: Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, e Senado Federal

O impacto nas urnas

Perfil do eleitorado jovem fluminense nestas eleições

16 a 17 anos   67.628  0,52%

18 a 20 anos 451.017  3,51%

21 a 24 anos 789.932  6,14%

Ao todo, 1.308.577, o que corresponde a 10,17% dos eleitores do estado

 

Política a um clique

Plataformas que ajudam a entender a disputa eleitoral

Politicando. Pela plataforma é possível responder a um questionário sobre temas como economia, saúde, segurança e meio ambiente, comparando as respostas com as dos candidatos. A ferramenta usa dados públicos e inteligência artificial para calcular afinidades em diferentes áreas.

Politize! Em 2026, a plataforma que transformou educação política em conteúdo para celular lançou a campanha Voto Sem Nó, com conteúdos e ferramentas voltados para a compreensão do processo eleitoral e ao combate à desinformação.

 

 

Ricardo Motta

Ricardo Motta é jornalista e responsável editorial do Rio Hoje Notícias. Atua na cobertura de política, cidades, segurança pública, esportes e acontecimentos do estado do Rio de Janeiro. Contato editorial: contato@riohoje.com.br.
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