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O suspense em torno da resposta dos EUA sobre proposta iraniana para encerrar guerra

O Irã afirmou, na quarta-feira 30, ter recebido uma resposta formal dos Estados Unidos à proposta apresentada por Teerã para interromper a guerra entre os dois países e retomar as negociações diplomáticas. Contudo, o conteúdo da mensagem americana, transmitida por mediadores do Catar, não foi divulgado.

A resposta chegou no mesmo dia em que os Estados Unidos concluíram a retirada de suas últimas tropas do Iraque, encerrando mais de duas décadas de presença militar no país.

Segundo a agência de notícias estatal Irna, o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, apresentou a resposta americana ao presidente Masoud Pezeshkian durante uma reunião do gabinete. Uma autoridade ouvida pela agência de notícias Reuters revelou que o conteúdo havia sido repassado ao chanceler na véspera, terça-feira 29, em Doha, quando ele fazia uma escala no Catar após participar da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York.

A troca ocorre depois que Trump afirmou, no fim de semana, ter rejeitado a mais recente proposta iraniana. Araghchi havia dito, porém, que Teerã ainda não havia recebido uma rejeição formal. Na semana passada, autoridades americanas e iranianas retomaram contatos indiretos às margens da assembleia da ONU, com o Catar atuando como intermediário. Foi a primeira tentativa de reaproximação entre os dois governos desde o colapso do entendimento firmado em junho.

O que o Irã pôs à mesa

A proposta iraniana estabelece um roteiro de sete dias para reduzir as hostilidades e reabrir o Estreito de Ormuz, uma das principais passagens marítimas do mundo e responsável, antes da guerra, por cerca de um quinto do transporte global de petróleo e gás. Teerã condiciona a reabertura da via ao cumprimento de uma série de exigências por Washington, entre elas o fim do bloqueio naval contra portos iranianos, a suspensão de sanções sobre o petróleo do país e um cessar-fogo que inclua também o Líbano. Em seguida, o Irã se comprometeria a normalizar a circulação pelo estreito e a retomar as negociações sobre seu programa nuclear.

A proposta é uma versão mais rápida de um acordo provisório firmado em junho. O chamado Memorando de Entendimento de Islamabad, de 14 pontos, havia interrompido temporariamente os combates e estabelecido uma janela para negociações sobre um acordo permanente. O entendimento, contudo, deixou em aberto questões centrais, especialmente o programa nuclear iraniano e as condições para a administração do estreito. Em julho, novas hostilidades e divergências sobre a circulação de navios fizeram o acordo entrar em colapso.

A principal dificuldade agora não parece estar apenas nas medidas previstas, mas na ordem em que elas seriam executadas.

O estreito permanece no centro da disputa. A passagem, localizada entre o Irã e Omã, conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico e é uma rota fundamental para exportações de petróleo e gás de países como Arábia Saudita, Iraque, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Catar. A guerra reduziu drasticamente o fluxo de energia pela região e elevou os custos de transporte. Embora o tráfego tenha aumentado nas últimas semanas, os volumes continuam abaixo dos níveis anteriores ao conflito, e navios mercantes ainda enfrentam riscos de ataques.

Guerra chega ao oitavo mês

O conflito começou em fevereiro, quando Estados Unidos e Israel lançaram uma ofensiva contra o Irã. Desde então, a guerra passou a afetar não apenas o Oriente Médio, mas também o mercado internacional de energia. A pressão econômica sobre Teerã aumentou com o bloqueio naval americano e o endurecimento das sanções, enquanto o fechamento parcial de Ormuz provocou alta dos preços de petróleo e derivados. Em setembro, barril de petróleo Brent, referência internacional, chegou a ser negociado acima de US$ 100 em meio às incertezas sobre o abastecimento mundial.

Trump, por sua vez, tem mantido uma postura de pressão máxima sobre o governo iraniano. O presidente americano afirmou que espera o fim do conflito e disse que Teerã acabará cedendo, mas também rejeitou a proposta apresentada por Araghchi. Em entrevista publicada nesta quinta-feira, 1º, Trump afirmou ainda que uma retomada de grandes operações de bombardeio contra o Irã depois das eleições legislativas de novembro é uma possibilidade, sinalizando que a via militar permanece sobre a mesa.

Para Teerã, a negociação também ocorre sob forte pressão econômica. O bloqueio e as sanções reduziram as exportações e agravaram a crise no país, enquanto o governo tenta preservar o controle sobre o Estreito de Ormuz como instrumento de pressão nas negociações.

Retirada americana do Iraque

No mesmo dia em que a diplomacia entre Washington e Teerã ganhou novo capítulo, os Estados Unidos concluíram a retirada de suas últimas forças militares do Iraque. O movimento havia sido acordado em 2024, ainda durante o governo de Joe Biden, e foi executado pela administração Trump. A saída encerra uma presença militar iniciada com a invasão americana de 2003 e retomada em 2014, quando Washington voltou ao país para combater o Estado Islâmico.

A retirada tem um peso especial no atual conflito porque o Iraque se tornou, nas últimas duas décadas, um dos principais palcos da disputa entre Estados Unidos e Irã. O país, de maioria xiita e vizinho do Irã, abriga grupos armados apoiados por Teerã e mantém relações estratégicas tanto com Washington quanto com o governo iraniano. Desde o início da atual guerra, milícias alinhadas ao Irã realizaram ataques contra forças e interesses americanos na região.

Ricardo Motta

Ricardo Motta é jornalista e responsável editorial do Rio Hoje Notícias. Atua na cobertura de política, cidades, segurança pública, esportes e acontecimentos do estado do Rio de Janeiro. Contato editorial: contato@riohoje.com.br.
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