A guerra comercial e as ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ajudaram a afastar o Canadá de Washington e aproximaram o país da União Europeia (UE). No início do segundo mandato, Trump chegou a defender que o vizinho se tornasse o 51º estado americano. Meses depois, o Canadá recebeu um convite para se tornar o primeiro “membro associado” do bloco europeu.
A proposta foi apresentada na quarta-feira (16) pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Embora ainda não estejam definidos os detalhes de como funcionaria a associação, o gesto sinaliza uma mudança nas relações entre Canadá, Estados Unidos e Europa.
Para James Batchik, vice-diretor do Centro Europa do Atlantic Council, a aproximação entre canadenses e europeus é uma consequência direta das ações e declarações de Trump.
“Devemos ver essa iniciativa do Canadá e da UE como uma consequência direta das ações e da retórica de Trump”, afirmou. Segundo ele, as ameaças de transformar o Canadá no 51º estado americano e as reivindicações sobre a Groenlândia reforçaram, em Bruxelas e Ottawa, a percepção de que os Estados Unidos podem não ser mais o aliado confiável de antes.
Tarifas desgastaram relação
A postura de Trump em relação ao Canadá provocou efeitos econômicos e políticos. O presidente americano impôs tarifas sobre produtos canadenses, afetando setores como automóveis, aço, alumínio e madeira.
O Canadá é, ao lado do México, um dos principais parceiros comerciais dos Estados Unidos. As medidas, no entanto, aumentaram as tensões entre os dois países e geraram dificuldades para setores ligados ao Partido Republicano em estados-pêndulo, segundo a análise apresentada na reportagem.
A relação também foi afetada pelos ataques públicos de Trump ao ex-primeiro-ministro Justin Trudeau. O presidente americano rompeu unilateralmente acordos que regulavam a relação entre os dois países há mais de um século.
No Canadá, a pressão americana contribuiu para fortalecer o apoio ao atual primeiro-ministro, Mark Carney, que assumiu uma postura de oposição a Trump. Em discurso no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, Carney defendeu uma nova ordem internacional que não fosse liderada pelos Estados Unidos. A declaração foi recebida com uma rara ovação de pé.
Cooperação em defesa e tecnologia
A União Europeia e o Canadá pretendem ampliar a cooperação em áreas estratégicas. Entre os setores citados estão:
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comércio e indústria;
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defesa;
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energia;
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minerais críticos;
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tecnologia;
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inteligência artificial;
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baterias;
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computação quântica;
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cibersegurança;
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segurança econômica;
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questões relacionadas ao Ártico.
Ursula von der Leyen afirmou que Canadá e Europa podem trabalhar mais estreitamente na produção de defesa, nas bases industriais e no fornecimento de minerais críticos.
O Canadá já havia se tornado, neste ano, o primeiro país não europeu a aderir ao programa de defesa da UE conhecido como SAFE. O mecanismo prevê 150 bilhões de euros em empréstimos para estimular a produção do setor e permite o acesso de empresas canadenses ao fundo.
Uma cúpula entre Canadá e União Europeia está prevista para o fim de outubro. A expectativa é que o encontro apresente propostas mais concretas para a nova parceria.
Associação ainda não tem regras definidas
Apesar do anúncio, ainda não está claro o que significaria, na prática, o Canadá se tornar “membro associado” da União Europeia. Também não foram divulgados detalhes sobre os direitos e deveres do país, o processo de aprovação ou o prazo para uma eventual adesão.
A pesquisadora sênior para a Europa do Council on Foreign Relations, Liana Fix, afirmou que a proposta ainda não apresenta uma definição clara além dos acordos comerciais e de defesa já existentes.
Trump reage à aproximação
Trump reagiu negativamente ao convite feito pela União Europeia. Em conversa com jornalistas na noite de quarta-feira, classificou o Canadá como um “péssimo parceiro comercial” e ameaçou impor tarifas elevadas ou interromper o comércio com a Europa caso considere a aproximação um ato hostil.
“Se eu considerar que é de alguma forma um ato hostil, vou impor tarifas muito pesadas ou interromper o comércio com a Europa em muitas áreas”, declarou.
A disputa com o Canadá faz parte da atenção ampliada de Trump ao Hemisfério Ocidental. Neste ano, o presidente americano também pressionou Cuba, ameaçou tomar o Canal do Panamá e reivindicou a Groenlândia, território autônomo ligado à Dinamarca.
Em uma atualização da Doutrina Monroe, Trump apresentou o chamado “Corolário Trump”, segundo o qual o povo americano — e não nações estrangeiras ou instituições internacionais — deve controlar o destino do Hemisfério Ocidental.
Relações podem levar anos para ser reconstruídas
Para Batchik, a postura de Trump em relação a antigos aliados, combinada com uma abordagem mais amistosa diante de rivais históricos, tem levado países europeus a buscar novas parcerias.
Segundo o especialista, a mudança pode representar um afastamento geracional dos Estados Unidos ou exigir “uma quantidade significativa de energia e tempo” para reconstruir as relações.
A aproximação entre Canadá e União Europeia ainda pode produzir resultados principalmente simbólicos. No entanto, o movimento demonstra como as tarifas, as ameaças territoriais e a diplomacia de confronto de Washington estão alterando alianças tradicionais.





