Geral

PMESP: Pele, Osso e Desilusão: O Rosto da Dor que a Farda Esconde

Parei numa esquina movimentada apenas para pedir uma informação simples a um jovem soldado da Polícia Militar. O que encontrei diante de mim, contudo, partiu o meu coração. Não vi a farda imponente do menino que um dia sonhou em salvar o mundo; vi um olhar cansado, sem vida, o rosto magro e abatido, dando lugar a pele e osso e rugas profundas. Um rapaz precocemente envelhecido, carregando o peso silencioso de uma dor que transborda a alma.

​ Em momento algum ele me falou de salário. O desabafo veio em lágrimas contidas sobre a agonia de se sentir descartável. Um jovem humilde que enfrenta tempestades, madrugadas geladas e a violência do asfalto para proteger quem nem conhece, apenas para ser rotulado de monstro pela mesma sociedade que defende. A verdade nua e crua é uma só: cabos e soldados carregam a Polícia Militar inteira nas costas. Enquanto a base da tropa sangra na rua, sem meios básicos de trabalho, sem gestão e sem sequer um horário decente para almoçar ou jantar durante turnos intermináveis, as cobranças de gabinete não param. Reuniões mensais exigem metas frias para baixar índices criminais, despejando toda a pressão e humilhação em cima dos ombros do praça.

​ A tropa está encurralada por um sistema impiedoso. Se cruza os braços, é crime militar; se sai à luta, adoece na escala massacrante, sem folgas pelo déficit de efetivo, vigiada por câmeras que parecem existir para incriminar o próprio agente em vez de resguardar sua vida. Comandantes fazem vistas grossas com seus «olhos de vidro» diante de perseguições internas, abusos e assédios morais covardes.

​ O resultado desse moedor de vidas não mente: centenas de baixas voluntárias, licenças psiquiátricas sem fim e uma trágica epidemia de suicídios que destrói famílias inteiras. Perguntei àquele soldado o que fazia quando finalmente tinha uma folga. A resposta foi um golpe no peito: «Durmo quase vinte horas seguidas, dona Sandra, porque minha mente já não suporta ficar acordada». Até quando o Estado vai fingir que não vê? Não há vocação ou amor à farda que resista à morte diária da própria dignidade.

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​Sobre a Autora: Eu, Sandra Campos, perdi meu filho de 24 anos para o suicídio. Transformei a dor em propósito e hoje sou ativista pela vida no projeto “Não te julgo, te ajudo!”, oferecendo acolhimento e escuta amiga. Não passe por esse peso sozinho. WhatsApp: (11) 94813-7799 | Instagram: @sandracamposa_

Ricardo Motta

Ricardo Motta é jornalista e responsável editorial do Rio Hoje Notícias. Atua na cobertura de política, cidades, segurança pública, esportes e acontecimentos do estado do Rio de Janeiro. Contato editorial: contato@riohoje.com.br.
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