Veículos chineses — que são amplamente controlados pelo governo de Pequim — vêm dando destaque à eleição brasileira. — Foto: Getty Images via BBC
Um dos maiores parceiros comerciais, um dos grandes países do planeta, uma fonte vital de produtos agrícolas, um aliado nos Brics e um importante ator regional em um continente fortemente influenciado pelos Estados Unidos.
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Essa é a visão que alguns órgãos de imprensa da China têm noticiado sobre o Brasil e as eleições presidenciais do próximo domingo (4/10).
Nas últimas semanas, a imprensa chinesa tem dado destaque ao pleito brasileiro, com especial enfoque aos dois principais candidatos — Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), considerados favoritos para irem a um segundo turno. Ambos aparecem nas primeiras posições de intenções de voto nos dois turnos da eleição, segundo o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil.
A China é o terceiro país com o pior índice de liberdade de imprensa, segundo ranking da organização Repórteres Sem Fronteiras, e praticamente tudo o que é publicado pela imprensa do país reflete o pensamento ou tem o aval do governo de Pequim.
Para explicar como a China — e a imprensa chinesa — estão vendo a eleição presidencial de domingo, a BBC News Brasil conversou também com Kerry Allen, analista de Mídia da China do BBC Monitoring.
Na avaliação de Kerry Allen, o interesse do governo chinês está refletido na cobertura que a imprensa local faz do processo eleitoral brasileiro.
O BBC Monitoring é um departamento especializado da BBC que monitora, traduz e analisa mais de 3 mil veículos em mais de 150 países e 100 línguas. Allen monitora a mídia chinesa e produz relatórios de análise.
Ela afirma que o Brasil costuma ser mencionado pelo presidente Xi Jinping como parte da “diplomacia de grandes países” — um tratamento especial dado pela China a alguns países.
Allen diz que o mercado de mídia chinês é amplamente dominado pela presença do Estado — que controla praticamente todos os veículos de grande circulação e audiência. Portanto praticamente tudo que é veiculado na imprensa possui uma chancela do governo de Pequim.
Na sua visão, a cobertura da imprensa chinesa da eleição brasileira parece demonstrar uma certa preferência de Pequim por Lula.
“Eu diria que, se há um candidato preferido da China, é Lula”, afirma Allen à BBC News Brasil.
No entanto, ela diz que a imprensa chinesa tem sido cautelosa em não se mostrar crítica a Flávio Bolsonaro — dado que Pequim não quer estar em posição antagônica ao Brasil caso ele vença a eleição.
“Acho que, em linhas gerais, a China espera que, independentemente de quem assumir o poder, as relações positivas sejam mantidas”, afirma Allen.
“Há um consenso implícito de que Lula já possui uma relação consolidada com Xi Jinping. E há um reconhecimento das falas de Flávio Bolsonaro de que as relações comerciais e econômicas não sofrerão alterações [caso ele seja eleito]”, afirma Allen.
Confira abaixo como a imprensa chinesa está noticiando a eleição brasileira.
Apelo da esquerda e direita é ‘praticamente o mesmo’
O Reference News — jornal de grande circulação que pertence à agência estatal Xinhua — descreve a eleição como “uma das mais polarizadas da história do Brasil”.
Jornal mais influente da China em assuntos internacionais — e também um dos mais lidos —, o Global Times, diz que a eleição terá um “impacto profundo no cenário político do país e em toda a região”.
O Global Times vê Lula e Flávio Bolsonaro com condições iguais de ganhar a disputa. Para o jornal, Lula teria uma vantagem no lado econômico, por suas políticas de bem-estar social e distribuição de renda. Já Flávio Bolsonaro ganharia mais votos entre os que estão preocupados com segurança.
Alguns veículos — como o Global Times a revista China Newsweek — questionam também a idade avançada de Lula no pleito.
“Lula afirma que caminha por uma hora todos os dias e que treina especificamente as pernas e os braços. O presidente brasileiro de 80 anos está bem ciente de que a idade é um tema inevitável”, afirma a China Newsweek.
Outro tema recorrente na imprensa chinesa é se uma eventual vitória da direita no Brasil poderia provocar um afastamento entre Brasília e Pequim — dada a proximidade de Flávio Bolsonaro com Donald Trump.
O jornal afirma que a direita brasileira aprendeu que os interesses chineses são vitais para a economia nacional e que “quer o Brasil vire para a esquerda ou para a direita, seus navios cargueiros continuarão a seguir para o leste”.
O Global Times, jornal de assuntos internacionais mais influente da China e conhecido por suas posturas antiamericanas, publicou uma longa reportagem sobre a eleição brasileira no final de agosto.
A eleição é apresentada como uma disputa em aberto, com pequena margem de votos entre os Lula e Flávio Bolsonaro.
O jornal afirma que Lula tem três vantagens como candidato.
“Primeiro, ele continua sendo o político de esquerda mais influente no Brasil, com uma base sólida de apoio popular, vasta experiência governamental e uma imagem internacional positiva”, afirma a reportagem de 31 de agosto.
“Segundo, ele mantém uma campanha que combina ‘esquerda com moderados e centristas’, e o vice-presidente Geraldo Alckmin, um político veterano de origem conservadora, contribui para conquistar o apoio do setor empresarial e dos eleitores de centro”, continua.
“Terceiro, a economia brasileira tem demonstrado certa resiliência nos últimos anos, e políticas como as transferências sociais e a promoção do emprego para as classes mais baixas têm ajudado Lula a consolidar sua base”, conclui.
O influente Global Times publicou longa reportagem com o título: “a disputa eleitoral no Brasil está se acirrando: segurança e condições de vida da população se tornam o foco do conflito”. — Foto: Reprodução via BBC
Mas o jornal destaca que um dos pontos negativos de Lula é sua idade avançada e problemas de saúde.
“Lula completará 81 anos em outubro de 2026 e foi diagnosticado com câncer de pele em maio deste ano, tendo se submetido a radioterapia superficial preventiva no couro cabeludo”, afirma o Global Times.
“Sua idade avançada, saúde debilitada, o desgaste social decorrente de seu longo mandato, somados às fortes preocupações com a segurança na sociedade brasileira, estão diminuindo suas chances de vitória.”
Além disso, o jornal destaca que, apesar das promessas econômicas às classes mais pobres do Brasil, Lula “tem dificuldades em apresentar um cenário de forte recuperação econômica, o que limita o apelo de suas políticas econômicas aos eleitores de centro”.
Flávio Bolsonaro é retratado como herdeiro da base de apoio de seu pai, Jair Bolsonaro, que inclui “grupos evangélicos conservadores, alguns grupos agrícolas e comerciais, eleitores anti-Partido dos Trabalhadores e apoiadores de políticas de segurança linha-dura”.
“O problema é que Flávio também carrega um fardo pesado: seu pai foi condenado em um caso relacionado a uma tentativa fracassada de golpe, e os conflitos políticos e jurídicos de sua família estão intimamente interligados; seu irmão, Eduardo Bolsonaro, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal por pressionar governos estrangeiros nos EUA a influenciar o sistema judiciário brasileiro”, afirma o jornal.
O Global Times afirma que, para os brasileiros comuns, as questões mais urgentes nesta eleição não são ideológicas — de “esquerda ou direita” — mas sim sobre a segurança nos seus bairros, os preços de alimentos e combustíveis, a disponibilidade de empregos para os jovens e a mobilidade social.
A reportagem afirma que as prioridades dos eleitores definirão quem irá conquistar seus “corações e mentes”.
“Se as principais demandas do público forem segurança de renda, bem-estar social e estabilidade nacional, Lula é mais persuasivo: se o combate ao crime e a manutenção da ordem social forem as principais preocupações, a direita tem maior probabilidade de despertar emoções”, afirma a reportagem.
“O candidato verdadeiramente vitorioso não é aquele que grita os slogans ideológicos mais estridentes, mas sim aquele que convence os eleitores de que pode proteger o sustento das pessoas e manter a segurança dos bairros”, pontua o jornal.
“A julgar pelas preferências atuais dos eleitores, tanto a esquerda quanto a direita têm seus pontos fortes em determinadas questões, e seu apelo é praticamente o mesmo”, afirma o Global Times.
Uma das preocupações noticiadas em alguns veículos é se Flávio Bolsonaro — que é fortemente alinhado aos EUA de Donald Trump, maior rival de Pequim no palco internacional — promoveria algum tipo de afastamento do Brasil em relação à China caso venha a ser eleito.
“Muitas pessoas que acompanham as notícias internacionais provavelmente se perguntam: se Lula, o presidente, for de fato derrotado pelo candidato de direita, as relações sino-brasileiras irão piorar?”, questiona reportagem publicada na segunda-feira (28/09) pelo NetEase, um portal de notícia e tecnologia considerado influente entre os mais jovens.
A reportagem da NetEase cita uma reunião a portas fechadas com empresários na Confederação Nacional da Agricultura do Brasil na qual Flávio Bolsonaro teria tranquilizado líderes empresariais presentes de que as relações comerciais e econômicas com a China não mudariam caso ele vença a eleição.
“Esse forte contraste entre o que acontece dentro e fora dos palcos revela o instinto de sobrevivência dos políticos brasileiros”, afirma o texto da NetEase.
“Para o Brasil, um país que depende fortemente da exportação de produtos primários para gerar excedentes em moeda estrangeira, o mercado chinês não é uma questão opcional, mas sim uma tábua de salvação para toda a economia nacional”, afirma a reportagem.
“Para o Brasil, um país que depende fortemente da exportação de produtos primários para gerar excedentes em moeda estrangeira, o mercado chinês não é uma questão opcional, mas sim uma tábua de salvação para toda a economia nacional”, afirma a reportagem. — Foto: Getty Images via BBC
O NetEase afirma que governadores de Estados com grande produção agrícola e a bancada ruralista no Congresso brasileiro estão entre os principais defensores das relações comerciais entre Brasil e China.
“Voltando no tempo a 2018, quando Jair Bolsonaro assumiu a Presidência, ele inicialmente seguiu o exemplo do presidente rebelde do norte [Donald Trump], entoando slogans ideológicos e até mesmo ultrapassando os limites na questão de Taiwan. Mas qual foi o resultado? Menos de um ano após o início de seu mandato, a realidade lhe deu um tapa na cara”, afirma a reportagem.
“O setor agropecuário brasileiro ficou em polvorosa, e governadores de todo o país alertaram o governo federal para que não prejudicasse seus próprios meios de subsistência”, diz.
E afirma, em seguida, que o próprio Bolsonaro trocou de postura sobre a China.
“No segundo semestre de 2019, Bolsonaro liderou diligentemente uma grande delegação à China, sorrindo amplamente diante das câmeras e enfatizando repetidamente a importância da parceria estratégica com o país. A atual elite política de direita do Brasil aprendeu muito com essa experiência. Tornou-se mais astuta e pragmática.”
A reportagem também apresenta a China como um executor concreto de investimentos no Brasil — como a construção de linhas de transmissão pela State Grid Corporation of China ou a instalação de montadoras como a BYD e GWM — enquanto os EUA oferecem apenas “conceitos vagos” de aliança.
“Há alguns anos, a Ford Motor Company anunciou repentinamente o fechamento de sua fábrica centenária em Camaçari, na Bahia, sem qualquer aviso prévio. Milhares de trabalhadores locais perderam seus empregos da noite para o dia, e toda a área da fábrica ficou reduzida a ruínas tomadas pelo mato”, diz a reportagem.
“Na época, o governo local recorreu a Washington em busca de ajuda, na esperança de que uma empresa americana pudesse assumir o controle, mas sequer recebeu uma resposta educada. Quem, afinal, salvou aquele parque industrial? Foi a montadora chinesa BYD.”
A NetEase destaca que os EUA seguirão tentando influenciar o Brasil a se afastar da China, mas que Washington não possui “recursos financeiros concretos” e que só oferece a Brasília “conceitos vagos como valores, alianças democráticas e acordos exclusivos de segurança”.
“Muitos podem perguntar: os EUA não vão pressionar o Brasil? Washington vai simplesmente ficar de braços cruzados enquanto a maior economia da América Latina se aproxima cada vez mais da China? A pressão certamente existe; os políticos de Washington têm sido incrivelmente ativos na América Latina nos últimos anos”, afirma o texto da NetEase.
“Quer o Brasil vire para a esquerda ou para a direita, seus navios cargueiros continuarão a seguir para o leste”, afirma reportagem do portal NetEase. — Foto: Getty Images via BBC
Além disso, na visão do site chinês, Brasil e EUA são concorrentes econômicos, mais do que parceiros.
“Pedir ao Brasil que abrace um concorrente direto e abandone um grande cliente que compra seus produtos em grandes quantidades todos os anos é uma decisão suicida para os negócios, que nenhum político brasileiro com um mínimo de bom senso tomaria.”
A reportagem conclui que qualquer que seja o presidente eleito pelo Brasil em outubro, as relações com a China não mudarão.
“Quer o Brasil vire para a esquerda ou para a direita, seus navios cargueiros continuarão a seguir para o leste. Nenhum presidente eleito pode arcar com as consequências catastróficas da soja não vendida, do fechamento de portos e da desvalorização da moeda.”
A questão da soberania brasileira frente a ameaças do presidente americano Donald Trump também foi apontada pela revista China Newsweek como importante na eleição brasileira.
“Lula disse que o Brasil deve estar preparado para impedir que forças externas cruzem a fronteira e ‘levem o presidente embora’, e que essa preparação visa a manutenção da paz. Embora o nome de [Nicolás] Maduro [da Venezuela] não tenha sido mencionado, quase todos entenderam a mensagem implícita”, afirma a China Newsweek.
A imprensa chinesa é uma das mais controladas pelo governo em todo o mundo — e praticamente tudo o que é publicado nos jornais e exibido nas televisões está alinhado ao Partido Comunista Chinês e ao governo de Pequim. A internet também é fortemente controlada pelo governo.
A China está em antepenúltimo lugar em um ranking de 2026 de liberdade de imprensa da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) — na frente apenas de Eritreia e Coreia do Norte, entre 180 países. Nesse ranking, que é liderado pela Noruega, o Brasil ocupa a 52ª posição e os EUA, a 64ª.
Alguns dos principais veículos de imprensa da China são a Agência de Notícias Xinhua, a China Central Television (CCTV), a China National Radio (CNR), os jornais China Daily, People’s Daily e Global Times, e os portais NetEase (163.com) e Sohu.
Segundo a RSF, o Departamento de Propaganda do Partido Comunista Chinês envia diariamente um comunicado detalhado a todos os veículos de comunicação, contendo diretrizes editoriais e tópicos censurados.
“Jornalistas independentes e blogueiros que ousam divulgar informações ‘sensíveis’ são frequentemente submetidos a vigilância, assédio e detenção e, em alguns casos, tortura”, afirma um relatório da RSF.
“Para obter e renovar suas credenciais de imprensa, os jornalistas precisam baixar o aplicativo de propaganda ‘Estude Xi, Fortaleça o País’, que pode coletar seus dados pessoais.”
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