O prefeito de Saint-Denis, Bally Bagayoko, foi atingido por gás lacrimogêneo, na terça-feira 6, ao se colocar entre estudantes que participavam de um protesto em Paris e policiais. Vídeos que circulam as redes sociais mostram o político tentando proteger os manifestantes enquanto agentes dispersavam a multidão.
Após ser atingido pelo gás, o prefeito precisou ser carregado para longe do tumulto e receber colírio nos olhos para aliviar a irritação.
Bagayoko, de 53 anos e integrante do partido de esquerda radical França Insubmissa, já havia participado anteriormente da intensa onda de manifestações estudantis que reuniu centenas de milhares de pessoas em diferentes regiões da França nos últimas semanas.
Dias antes do episódio desta terça-feira, o prefeito foi filmado próximo a uma lixeira em chamas diante de uma escola em Saint-Denis dançando com estudantes. Bagayoko rejeitou as acusações de que teria incentivado os tumultos e afirmou que as imagens foram editadas e retiradas de contexto. Segundo ele, sua intenção era apagar o fogo e afastar os destroços em chamas da escola para proteger os alunos. Um estudante também afirmou à imprensa francesa que o prefeito havia pedido aos manifestantes que interrompessem o incêndio.
O governo centrista do presidente Emmanuel Macron e o partido de extrema direita Reagrupamento Nacional (RN), liderado por Marine Le Pen, no entanto, acusam a França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon de incitar e instrumentalizar a violenta onda de protestos estudantis. O partido nega, enquanto seu líder, que se prepara para sua quarta disputa presidencial em abril de 2027, acusa o Palácio do Eliseu de comandar uma “repressão feroz com claro viés racista” ante o movimento estudantil.
Mobilização
Os protestos começaram no final de setembro em uma escola de ensino médio nos arredores de Paris, motivados pela escassez de professores. O governo foi pego de surpresa quando o movimento se espalhou por todo o país. Desde a última segunda-feira, os atos ganharam contornos violentos, com confrontos entre manifestantes e a polícia e incêndios em escolas.
Nesta terça-feira, 256.000 pessoas participaram dos protestos em todo o país, sendo 56.000 só em Paris, segundo o Ministério do Interior francês. Os organizadores, por sua vez, estimaram uma mobilização bem maior: 450.000 manifestantes, incluindo 100.000 na capital. De acordo com a União dos Estudantes do Ensino Médio, 1.800 escolas foram bloqueadas ou fechadas durante o dia, de um total de 3.700.
Os protestos, inicialmente concentrados em escolas de ensino médio, também chegaram às universidades. Cerca de 40% das instituições públicas de ensino superior tiveram algum tipo de interrupção, entre bloqueios totais ou parciais, ocupações e fechamentos administrativos, de acordo com o Ministério do Ensino Superior. O sindicato União Estudantil, que lidera a onda de protestos nacionais, chegou a afirmar, mais cedo, que todas as universidades do país estavam mobilizadas.
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O primeiro-ministro Sébastien Lecornu classificou a mobilização como a mais violenta registrada nas escolas francesas em décadas. Segundo seu gabinete, ao menos 715 policiais, 215 adolescentes e 85 funcionários ficaram feridos desde o início dos protestos.
O governo francês anunciou nesta quarta-feira, 7, a suspensão do uso de granadas de efeito moral pela polícia durante os protestos, após um adolescente de 15 anos perder a mão durante um confronto com policiais na cidade de Lens, no norte do país.
Ao todo, 488 pessoas foram detidas apenas na terça, informou o Ministério do Interior. Desde 28 de setembro, quando a mobilização começou a ganhar força, 6.547 pessoas foram presas em atos relacionados ao movimento.
Diante do aumento da tensão, o presidente Emmanuel Macron convocou uma reunião no Palácio do Eliseu para discutir a situação. Participariam do encontro Lecornu, Nuñez e o ministro da Educação, Edouard Geffray.
Governo tenta acalmar a revolta
Os protestos continuam mesmo após Lecornu tentar acalmar os ânimos ao classificar as queixas dos estudantes como “legítimas”, afirmar que o governo precisa ouvir suas demandas e prometer propostas concretas até o final de outubro.
O premiê francês ordenou que seu gabinete aborde as cinco principais reivindicações dos estudantes, entre elas a substituição de professores ausentes, reconhecendo que alunos de algumas regiões perdem meses de aulas devido à escassez de profissionais — inclusive em anos decisivos para exames. Lecornu também pediu uma revisão da longa jornada escolar na França, que está entre as mais extensas da Europa.
O governo ainda analisará a realização de reparos em prédios escolares deteriorados. Manifestantes relataram infiltrações de água nas salas de aula, presença de baratas, desabamento de tetos e calor insuportável no verão.
“Nossa prioridade é restaurar a ordem”, disse a porta-voz do governo, Maud Bregeon, à emissora de TV CNews nesta segunda.





